Presidência sem presidente

Na semana dos 15 anos da morte de “Patativa do Assaré (Antonio Gonçalves da Silva), 1909/2002, poeta, músico e compositor cearense. Xico lembra poema que tem tudo a ver com a atual da política brasileira. O texto tem pequenas adaptações, sem alterar o conteúdo.

Nesta semana dos 15 anos de morte de Patativa, só nos resta adaptar o repente: Presidência sem presidente. Afinal, o cenário no planalto é mais surrealista do que o descrito pelo autor. Em visita ao meu Cariri, relembrei um poema histórico dele. O mote: Prefeitura sem prefeito. Cansado de procurar o alcaide do município, Patativa denunciou em 1940, a vacância do cargo. Um escândalo que deu na sua prisão. Foi um bafafá digno dos sururus satíricos do baiano Gregório de Matos o “Boca do Inferno”.

 

“Nessa vida atroz e dura

Tudo pode acontecer

Muito breve há de se ver

Prefeito sem prefeitura;

Vejo que alguém me censura

E não fica satisfeito

Porém, eu ando sem jeito,

Sem esperança e sem fé,

Por ver no meu Assaré

Prefeitura sem prefeito.

Donde se lê Assaré, leia-se Brasil. Conversado com ele, em 1980, no bar Pau do Guarda, no Crato, ele dizia, à base de goles de Xanduzinha com pirão-de-galinha: “É só trocar o prefeito pelo general Figueiredo”, mandatário da época.

 

“Por não ter literatura,

Nunca pude discernir

Se poderá existir

Prefeito sem prefeitura.

Porém, mesmo sem leitura,

Sem nenhum curso ter feito,

Eu conheço do direito

E sem lição de ninguém

Descobri onde é que tem

Prefeitura sem prefeito.

 

Nessa visita, no Sítio das Cobras (Santana do Cariri), apresento a filha Irene ao vô Demar e Patativa reverbera, como se o ouvisse, vez primeira, na rádio Araripe do Crato:

 

“Ainda que alguém me diga

Que viu um mudo falando

Um elefante dançando

No lombo de uma formiga,

Não me causará intriga,

Escutarei com respeito,

Não mentiu este sujeito.

Muito mais barbaridade

É haver numa cidade

Prefeitura sem prefeito.

 

Quem precisa de realismo-fantástico, com todo respeito ao velho Gabo, diante do noticiário sobre a política brasileira? Era o que Patativa já percebia desde jovem poeta. Presidência sem presidente! Ô Temer febre do rato, estampô calango, acoloiado com o demo, cão do último livro, infeliz das costas ocas... Só a poesia do Cariri nos salva:

 

“Não vou teimar com quem diz

Que viu ferro dar azeite,

Um avestruz dando leite

E pedra criar raiz,

Ema apanhar de perdiz

Um rio fora do leito,

Um aleijão sem defeito

E um morto declarar guerra,

Porque vejo em minha terra

Prefeitura sem prefeito.

 

Xico Sá

(*) Francisco Reginaldo de Sá Menezes

“Xico Sá”. É escritor e colunista cearense.

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