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Era uma vez um campo de paz...

O tema do presente artigo já foi abordado com o título de Trilha da Hipocrisia e a objetividade costumeira do consagrado escritor e jornalista Antonio Lopes. Volto modestamente ao assunto, ressaltando que nada faltou esclarecer. Com isenção e lucidez meu amigo Lopes “falou e disse”, frase da linguagem coloquial por vezes usada quando alguém competente esgota um assunto. O problema é que ficou no ar uma frase de Martin Luther King: “O que preocupa é o silêncio dos bons”. Não estou a dizer de virtudes minhas ou bondade que eu possa alardear. Longe de mim a prática deletéria do elogio em boca própria. Estou apenas usando o direito da cidadã que vive em um país democrático, com plena liberdade de expressão assegurada pela Constituição vigente. E principalmente buscando evitar a inclusão entre os indiferentes e omissos.

Quero referir-me à notícia saída dos bastidores da UESC e já circulando nas redes sociais, referente à pretensão de substituir o nome do ex-governador Paulo Souto, que identifica o Centro de Cultura e Arte, construção que abriga o auditório e a biblioteca da Universidade. O nome ventilado para receber a honraria seria o da professora, filósofa e poeta Valdelice Soares Pinheiro. Eu vivi a FESPI como aluna e a FESPI/UESC como docente e tive e tenho Valdelice Soares Pinheiro como uma luz em meu caminho desde os dezesseis anos de idade. É claro que o nome de Valdelice, leve como a pluma, sem atritos, ícone verdadeiro, é por todos admirado, amado e respeitado. Val, ou Lalá, como é chamada pela família, é a criatura mais doce e meiga que já existiu na vida acadêmica, legítima emissária da paz e da união. Exatamente por ser quem é, não posso aplaudir o uso do seu nome para ocultar a verdadeira finalidade da insensata e indigesta mudança. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

O argumento mais forte do grupo porta-voz da “legalidade estrita” seria a lei estadual que impede o uso do nome de pessoas vivas para identificar ruas, prédios e locais congêneres. Itabuna, Ilhéus e o país inteiro oferecem incontáveis exemplos. A Avenida ACM, em Salvador, foi batizada com o nome do famoso político quando ele estava vivo e bem vivo; em ligeira amostragem, em Itabuna, Teatro Zélia Lessa, Ginásio de Esportes Fernando Gomes, rua Ubaldo Dantas, Colégio Norma Vídero etc. etc. A querida Zélia, maestrina e compositora, é campeã de longevidade para alegria dos seus muitos amigos; Fernando Gomes exerce o mandato de prefeito pela quinta vez; meus amigos Ubaldo e Norma, estão bem, graças a Deus e residem em Salvador. Seria uma inútil e desnecessária perda de tempo divulgar uma lista dos prédios públicos e logradouros nas duas cidades e nesse imenso Brasil. O que não falta nesse país são “leis que não pegam”, verdadeiras normas em branco risíveis pela inutilidade de que se revestem. Pelo visto, os “legalistas” da UESC têm pela frente uma longa e heróica cruzada para coibir os abusos, provando que não existem dois pesos e duas medidas, nem propósitos inconfessáveis. Nosso conselho é que fiquem restritos ao Estado da Bahia, para garantir-lhes a competência. Refiro-me à “competência” no significado jurídico processual, diga-se de passagem.

A história da Faculdade de Direito de Ilhéus, Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna e, por fim, Universidade Estadual de Santa Cruz, não foi escrita sob a inspiração de ideologias exacerbadas de esquerda, direita ou centro, nem de “guerras” midiáticas contra preconceitos que nunca existiram em nosso meio acadêmico. Nosso passado registra a luta incansável pelo crescimento e independência de uma casa de ensino superior sob a égide da democracia, sem escravizar-se a ideologias políticas que destruam valores essenciais à sadia interação social. É muito fácil conseguir adesão ao nome de Valdelice. Principalmente para aqueles que ignoram seu jeito de ser e seu legado. Ela sempre foi o que quis ser: fiel a si mesma, poetisa, filósofa e professora. Nunca pretendeu ser executiva ou gestora e com certeza ficaria feliz se urbanizassem o bosque (falam na existência de um bosque que ganharia seu nome) plantando muitas flores, pitangueiras e goiabeiras, sem esquecer cacaueiros. Ela vaticinou, em seu poema dedicado à UESC, “um “campo de paz”, com “novos passos/ nova luz/ e uma ternura nova /sobre o mundo”...

A memória de uma instituição não pode ser apagada impunemente. Nesse passo, se nosso silêncio for a resposta, tentarão substituir o nome do Campus Soane Nazaré de Andrade, apagando a homenagem prestada ao responsável pela materialização do sonho de uma universidade em nossa região. O chão onde todos pisam, de todas as etnias, gêneros e ideologias, foi doado à instituição graças ao fundador que empresta o nome ao campus, bem como deve-se a ele a colaboração da CEPLAC para a execução material do projeto.

Uma instituição guarda marcos indeléveis a serem preservados. O ex-governador Paulo Ganem Souto autorizou e concedeu todos os meios materiais necessários à construção do discutido Centro de Cultura e Arte e implantou a Faculdade de Medicina. Preservadas e reverenciadas, também, na memória da UESC, a Reitora Emérita Renée Albagli Nogueira e a Vice-Reitora Margarida Cordeiro Fahel, gestoras de conduta inatacável e comprovada competência, incapazes de acordos espúrios para atribuir nomes a espaços da universidade. O que todas as pessoas de bom senso desejam é que seja devolvido o “campo de paz” batizado por Valdelice Soares Pinheiro, protegendo-o para que não desapareçam as marcas dos seus passos e a música dos seus versos.

Sônia Carvalho de Almeida Maron

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